Pular para o conteúdo principal

24º

Era uma casa,dessas que as madeiras remendadas deixam toda a estrutura de pé,uma arquitetura absolutamente vernacular, vernacular do alto grau.No quintal um cachorro solto e na coleira esfolada,se via a vontade dele de ser livre,(falo daquela liberdade que vai além da desobediência).Havia também lama, dessas formadas pelo pisar de galinhas e sabe lá mais o que diabos... é diabos! porque Deus nessas horas não se vê,acho que Deus não está no que é feio( ou sim, ou talvez).Havia eu,que tinha medo de cachorro,mesmo havendo em mim, além do medo, a consciência de que ele não apresentava perigo algum( lhe faltavam forças e quem sabe dentes) mas ele esbanjava coragem no seu latido rouco e tímido.Antes de entrar bati palmas,a dona me olhou de '' cabo à rabo'' até focar a trena que eu segurava nas mãos e me recebeu, como todo morador desse tipo de casa nos recebe:no portão seguido de um ''fica à vontade e não repara a bagunça''.Mas eu realmente não tive o que reparar, tava tudo ali exposto de forma crua.Adentrei à casa (que parecia um labirinto),mil móveis velhos, aparelhos em desuso eram quase arcaicos,toca-fitas,toca long plays, televisão quebrada no balcão da cozinha( como se fosse objeto de ''decoração'')...roupas das crianças por toda a parte do chão.Eu sentia um nojo cru, que só a realidade te faz sentir e o mais incrível também que é o:não sentir nojo(ao mesmo tempo) pois de certa forma quanto mais podre,pobre,poluída é a cena,mais vemos reflexos nossos.
-Oi?, viemos lhes desapropriar...(não foi bem assim, não é assim que prega a psicologia)
-Eu já esperava...(ela dizia com um ar de foda-se tudo isso aqui, eu já não quero)
Fazendo surpreender com o desprendimento,eu não sei realmente onde estava o valor que ela agregava àquilo tudo, porque puxa vida...eram seus pertences,seu lugar,parte de sua vida.
Ela era mãe de 5 filhos( iniciamente solteira),mulher bonita, tinha os olhos claros, cabelos lisos e castanho-claro que nem o coque amarrotado na cabeça negou tinha um nariz afilado e um olhar triste e vago.Enquanto ela respondia um questionário chato e sócio-econômico eu caminhava anotando cada perímetro,metro,notando cada ponto na compania de duas crianças,a Nazaré que mal fala e de seu irmão, enquanto eu caminhava pela casa cheia de cômodos e remendos,notei várias fotografias do seu provável marido... estavam em todos os lugares (...)



Comentários

  1. graças pq essa de layout tá me fazendo arrepender haha culpa tua!

    ResponderExcluir
  2. O mal estar da modernização. Tenho pensado tanto nisso... Não só pq sou obrigada a ler mil livrinhos sobre o assunto para não reprovar em Ciência Política, mas também porque nossa realidade é tão crua e ao mesmo tempo tão não vista. E tão absurda. E tão sem solução. Fico pessimista.

    ResponderExcluir
  3. agooooooooora, eu consigo comentar.
    Eu fico imaginando, como deve ser entrar nessas casas e ver tanta coisa, tanta coisa "crua"..
    Mas também, não vamos jogar a deus tantas coisas, ele é apenas a imagem, que botamos a culpa de tantas coisas no mundo.
    Por mais feia e podre, que seja a casinha, no fundo ela não queria sair dalí.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

dá pitaco

Postagens mais visitadas deste blog

Perspectiva

Apresento à vocês : Perspectiva cônica ! vão encarar ? Minha coluna vertebral pede pinico! mas é assim mesmo , então da planta baixa adotamos 6,5 de distância que será o observador o lado esquerdo está no angulo de 30º e o direito 60º abaixo a linha do horizonte onde a casa do desenho está a ''pontinha'' dela é a nossa verdadeira grandeza, e nos extremos temos dois pontos de fuga ... um de cada lado .Nem vou dizer como a casa acaba sendo erguida , podia explicar mas vocês não iriam entender =/ através de palavrinhas... seria um aluguel ... mas só sei que é tão bom ver o resultado final , depois disso ai , passarei essa fachada pro papel vegetal e à mão-livre cobrirei com naquim ai ficará um luxo! quero logo essa parte , por mim é a mais esperada. Eu quero peace= férias. ^.~V

é voltar pra si

Aqui ta cinza, não falo no sentido figurado, a cor é real. E como todo cinza é frio, aqui tá gelado. Enquanto leio sobre Arquitetura grega, aparece uma forte vontade aqui dentro...baseada numa saudade, ela surge depois de uma certeza de que nunca mais faria algo, ela vem sempre depois de um abandono, abandonei essa página de linhas soltas que dizem mais sobre mim do que meus olhos escuros e que se por acaso uni-las, ( elas as linhas ) formaria meu passado, reviveria a dor dos meus calos mais doloridos e sentiria aquelas minhas vontades mais profundas. Conclui que o abandono é uma chave invisível, que você só pode usar para voltar, seja pra qual for a direção - Abandono é voltar pra si - e si nem sempre quer dizer só.
Hoje fiquei um bom tempo olhando pra vinha, aquele campo verde, aquela casa cheia de janelas. No entardecer triste, triste como todo entardecer.Enquanto nuvens rosas corriam no céu, me surpreendo com um pensamento, ele dizia baixinho quase ecoando  : " eu não existo aqui, uma parte de mim não existe aqui " o vento em silêncio arrastava nuvens, pássaros sibilavam longe, aquele verde e cor triste da tarde, triste como todo entardecer.